Quem Manda No Mundo? - Resenha crítica - Noam Chomsky
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Quem Manda No Mundo? - resenha crítica

Sociedade & Política

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 9788542210194

Editora: CRÍTICA

Resenha crítica

Você já reparou como algumas mortes viram manchete por semanas e outras somem em uma nota de rodapé? Não é acaso. É escolha — e alguém faz essa escolha todos os dias, no seu lugar.

Noam Chomsky passou décadas comparando essas duas colunas. De um lado, o que o Ocidente chama de atrocidade. Do outro, o que o Ocidente chama de erro bem-intencionado. O conteúdo costuma ser o mesmo: civis mortos, cidades destruídas, aviões abatidos. Muda só quem apertou o botão. Quando o autor pergunta quem manda no mundo, ele não espera uma resposta de uma palavra. Espera que você olhe para os atores concretos: governos, bancos, conglomerados, jornais. E que perceba quanto da sua opinião sobre o planeta foi montada por eles.

Nas próximas páginas você vai atravessar guerras, golpes, acordos de paz que não eram de paz e relógios que marcam quantos minutos faltam para o fim. Mas o fio é um só: por trás do verniz moral existe um cálculo frio de controle e lucro. E existe também, segundo o autor, uma força capaz de freá-lo — a opinião pública organizada. Aquilo que ele chama, sem ironia, de a segunda superpotência do planeta.

Prepare-se para um incômodo produtivo. Depois disso, é difícil ler jornal do mesmo jeito.

Quem é chamado de dissidente

Pense em dois professores. Um critica o governo russo e vira herói nos jornais ocidentais, ganha prêmio, dá entrevista. O outro critica o governo americano e é tratado como figura marginal, radical, alguém que "exagera". Os dois fizeram a mesma coisa: disseram a verdade sobre o poder que os cerca.

Chomsky mostra que a palavra "dissidente" é um título de honra distribuído com critério político. Václav Havel foi celebrado no Ocidente com justiça. Já os intelectuais latino-americanos assassinados por forças treinadas em solo americano não entraram na lista de mártires de ninguém. No começo do século vinte, quem denunciava o próprio Estado era rotulado com desprezo — vinham a chamá-los de anarquistas de palanque, agitadores que falavam bonito e não serviam para nada. O recado era claro: desafie os inimigos oficiais, nunca os seus.

Essa seleção também acontece dentro das redações. O autor dissecou uma única edição do New York Times, de 6 de abril de 2015. Páginas e páginas sobre uma reportagem falha da revista Rolling Stone. E, enterrada no miolo, uma nota sobre os bombardeios americanos no Laos. A matéria repetia a versão oficial — alvos militares — ignorando o que o pesquisador Fred Branfman já havia documentado com os próprios camponeses: as bombas caíram sobre aldeias porque havia aviões parados sem missão. Walter Lippmann tinha nome para isso: fabricar consentimento.

Terrorismo depende de quem aperta o botão

Em 2008, o comandante do Hezbollah Imad Mughniyeh foi morto em Damasco. O Ocidente comemorou. Um terrorista a menos. Agora compare com 1985, quando Israel bombardeou Túnis matando dezenas de pessoas, e com o carro-bomba da CIA em Beirute no mesmo ano, que fez mais de oitenta mortos. Nenhum desses episódios virou símbolo de barbárie. Viraram linhas secas em relatórios.

A diferença não é o número de corpos. É o endereço do responsável. Em 1988, um navio de guerra americano abateu o voo 655 da Iran Air dentro de águas iranianas. Morreram 290 pessoas, 66 delas crianças. Os comandantes receberam condecorações. George H. W. Bush disse que jamais pediria desculpas pelos Estados Unidos, não importava o fato. Vinte e seis anos depois, o voo MH17 caiu na Ucrânia e o mundo inteiro parou — com razão. Só que a indignação não é distribuída pela dor das famílias, e sim pela nacionalidade de quem disparou.

O mesmo vale para a liberdade de imprensa. O massacre no Charlie Hebdo, em 2015, levou milhões às ruas da Europa. Em 1999, bombas da OTAN atingiram a sede da televisão estatal sérvia e mataram dezesseis jornalistas. Autoridades defenderam o ataque como legítimo: era, segundo elas, uma arma de propaganda. Chomsky chama essa seleção de memória viva — lembramos o que sofremos, esquecemos o que causamos.

O Estado terrorista que ninguém nomeia

Há um documento que resume tudo. O New York Times noticiou que a CIA, a pedido do presidente Obama, revisou suas próprias operações de apoio a insurgências armadas para saber se davam resultado. O relatório avaliava friamente o desempenho dessas campanhas em lugares como Angola, Nicarágua e Cuba. A pergunta não era se aquilo era crime. Era se funcionava bem.

Pare um segundo nesse detalhe. Um governo admite por escrito que financia guerras irregulares pelo mundo, e a discussão pública gira em torno de eficiência. Ninguém renunciou. Ninguém foi julgado. Na cultura política ocidental, parece natural que o país que se apresenta como líder do mundo livre pratique terrorismo em larga escala, desde que com bom custo-benefício.

O caso cubano é o mais revelador. A Operação Mangusto, lançada sob Kennedy, incluía sabotagem industrial, ataques a instalações civis e tentativas de assassinato. Era terrorismo de Estado em escala industrial contra uma ilha vizinha. Enquanto isso, Nelson Mandela agradecia publicamente a Cuba pelo papel decisivo na libertação do sul da África. Esse agradecimento quase nunca aparece nos relatos ocidentais sobre a ilha. Fatos inconvenientes não costumam sobreviver à edição.

Democracia é bem-vinda, desde que perca

Quando a Primavera Árabe explodiu, Washington falou em apoio à liberdade. Mas o histórico conta outra história. O princípio que o autor batiza de doutrina Muasher, a partir de um antigo funcionário jordaniano, é simples e brutal: enquanto a população rebelde estiver sob controle, está tudo bem. A opinião popular da região é esmagadoramente contrária às políticas americanas, e por isso ela precisa ser contida, não ouvida.

Isso aparece desde os anos 1950. Eisenhower se preocupava com uma campanha de ódio contra os Estados Unidos no mundo árabe. Seus próprios assessores sabiam a razão: as pessoas odiavam os regimes que Washington sustentava, não os americanos. A energia explica o resto. Quem controla as reservas de petróleo da região controla bem mais do que combustível — controla a economia alheia. Uma população soberana sobre seus recursos é, nessa lógica, uma ameaça.

A reaproximação de Obama com Raúl Castro, em 2014, foi vendida como virada humanitária. Chomsky lê diferente. Toda a América Latina já havia se voltado contra o bloqueio, e os Estados Unidos corriam o risco de ficar sozinhos no próprio hemisfério. Não houve mudança de coração. Houve contenção de danos. O autor lembra uma frase de Tácito que descreve bem o tom do discurso: o crime, uma vez exposto, só encontra abrigo na ousadia.

A segurança de quem, exatamente?

Em 1989, a União Soviética desmoronou. Pela lógica oficial, o orçamento militar americano deveria encolher. Aconteceu o contrário: a OTAN se expandiu, as intervenções continuaram, os gastos cresceram. Mudaram apenas os pretextos — primeiro narcotraficantes, depois terroristas, depois Estados párias. Quando a explicação muda e a prática permanece, a explicação nunca foi a causa.

O que permanece, segundo o autor, são dois objetivos. Proteger o poder estatal da própria população e blindar os interesses corporativos de qualquer interferência democrática. O conselheiro Samuel Huntington resumiu a mecânica sem rodeios: o poder permanece forte enquanto permanece no escuro; exposto à luz do sol, começa a evaporar. O sigilo não guarda segredos do inimigo. Guarda segredos de você.

A tortura segue a mesma linha. Os memorandos da era Bush causaram choque, mas o chamado paradigma da tortura foi desenvolvido pela CIA ainda nos anos 1950 e atravessou governos de Ford a Bush, reaparecendo quase intacto em Abu Ghraib. E quando Washington fala em perigo iraniano, as próprias agências de inteligência americanas registram que a doutrina do Irã é defensiva. O incômodo real é outro: um país com capacidade de dissuasão limita a liberdade de atacar sem resposta.

A paz que serviu para congelar a paz

Em 1993, fotos do aperto de mão em Washington correram o mundo. Os Acordos de Oslo foram apresentados como o começo do fim do conflito. Yasser Arafat assinou em posição frágil, tentando recuperar autoridade diante das lideranças palestinas que haviam crescido dentro dos territórios durante a Primeira Intifada. O texto não mencionava direitos nacionais palestinos. Não exigia o fim dos assentamentos, que aceleraram depois da assinatura. O jornalista israelense Danny Rubinstein descreveu o resultado como uma autonomia parecida com a de um campo de prisioneiros de guerra.

Chomsky argumenta que o debate entre um Estado e dois Estados esconde a opção que está realmente em curso. Israel anexa na prática as terras produtivas e as áreas valiosas da Cisjordânia, inclusive Jerusalém Oriental e os grandes blocos de colônias, e deixa a população palestina fragmentada em cantões desconectados. Assim evita o chamado problema demográfico e impede uma luta por direitos civis nos moldes sul-africanos.

Gaza completa o quadro. A retirada dos colonos em 2005 foi descrita por um assessor de Ariel Sharon como formaldeído injetado no processo político, para preservá-lo sem vida. Depois da vitória eleitoral do Hamas em 2006, vieram sanções e cerco. E os cessar-fogos funcionam como pausa útil: dão cobertura internacional enquanto o bloqueio econômico sufoca, até a próxima operação que os militares chamam, sem constrangimento, de cortar a grama.

Tudo para nós, nada para os outros

Adam Smith, o mesmo citado nos manuais de economia, descreveu há dois séculos a máxima vil dos donos do dinheiro: tudo para nós mesmos, e nada para as outras pessoas. Chomsky usa essa frase como chave para entender o que aconteceu com a economia americana desde os anos 1970. A produção foi terceirizada, as finanças incharam, e a riqueza subiu.

Analistas do Citigroup chegaram a escrever relatórios internos para investidores descrevendo o país como uma plutonomia: uma economia em que o crescimento é puxado e consumido por uma minoria rica, enquanto o resto vive na insegurança. Não foi acidente histórico. Foi política pública repetida, com crises de déficit em boa parte fabricadas para justificar cortes em programas sociais que a maioria da população apoia.

Esse processo tem raízes antigas. A Magna Carta trazia duas cartas, e a segunda, a Carta da Floresta, protegia os bens comuns — as terras e os recursos de que as pessoas comuns viviam. Ela foi engolida pela privatização. Nos Estados Unidos, a história trabalhista é das mais violentas do mundo rico: greves esmagadas à bala, campanhas de propaganda sofisticadas, operários tratados como ameaça. Eles pediam pão e rosas, salário e dignidade, recusando a condição de escravos assalariados. Figuras como John Stuart Mill e Abraham Lincoln achavam natural que as empresas pertencessem a quem trabalha nelas.

Três minutos para a meia-noite

Em outubro de 1962, o mundo chegou mais perto do fim do que em qualquer outro momento conhecido. Durante a Crise dos Mísseis, um submarino soviético cercado por cargas de profundidade americanas discutiu lançar um torpedo nuclear. O oficial Vasili Arkhipov recusou. Em 1983, no exercício militar Able Archer, sistemas soviéticos acusaram mísseis americanos a caminho; Stanislav Petrov decidiu que era falha técnica e não repassou o alerta. Duas vezes, a sobrevivência da espécie dependeu de um homem desobedecendo.

Kennedy, naquela semana, recusou uma troca pública de mísseis com a União Soviética para não parecer que cedia. Preferiu correr o risco da guerra terminal a abrir mão do princípio da ação unilateral. E a guerra secreta contra Cuba continuou depois. A mesma lógica aparece no Vietnã e no Chile: nações que tentaram um caminho próprio foram tratadas como vírus a ser contido antes que contagiassem a vizinhança.

Hoje o perigo tem companhia. Em 2015, o Relógio do Juízo Final foi ajustado para três minutos da meia-noite por duas razões: armas nucleares e mudança climática fora de controle. A maioria dos americanos apoia acordos climáticos obrigatórios, e mesmo assim o sistema político os sabota em nome do lucro imediato. Enquanto isso, quem organiza a resistência mais firme são povos indígenas da Bolívia e do Equador, enfrentando as gigantes do petróleo com muito menos poder e muito mais clareza.

Notas finais

Hegemonia não produz paz: produz obediência e acesso a recursos. Por isso o verniz moral da imprensa de elite precisa ser raspado — é ele que transforma cálculo em virtude. Chomsky aposta na única força que já obrigou governos a recuar: gente comum prestando atenção junto. A apatia é a arma mais barata dos senhores da humanidade.

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Quem escreveu o livro?

Noam Chomsky é um linguista teórico, filósofo, cientista cognitivo e ativista político americano que teve papel fundamental na revolução cognitiva. Formou-se e obteve seu doutorado pela Universidade da Pensilvânia, e atua como professor laureado de linguística na Universidade do Ari... (Leia mais)

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